Vivíamos uma ao lado da outra. Os habituais miminhos eram, invariavelmente, a primeira coisa a fazer quando chegava da escola! A seguir, eu fazia-lhe as perguntas que, pensava eu, lhe exercitavam a memória: desde os noventa anos começou a achar que tinha noventa e dois e, a partir daí, estagnou na idade... Ficávamos nisto cerca de uma hora, antes de ouvirmos as duas um grito que me lembrava da refeição que estava na mesa, à minha espera e, lá ia eu! Depois voltava e, se fosse preciso, comia outra vez! Esta foi a minha rotina durante dez anos! Minha Avó, que saudades... que saudades do usual leite com bolachas, do gelado de caramelo (sem pepitas porque, segundo o que dizia, tinham uma textura estranha) e de todas as vezes que me pediu para não contar a ninguém que tinha roubado biscoitos da lata!
Hoje, pergunto-lhe Avó: "aí no Céu, que idade tem?" E, mesmo sabendo que o tempo aí em cima é relativo, tenho a certeza que me responde: "os eternos noventa e dois, querida filha!"
Um insignificante tributo à melhor avó do coração pelos seus cem anos de vida (seis já na sua Eterna Casa).
Cuca.

